Quanto menos profissionais qualificados disponíveis no mercado de TI, maior a disputa por eles. É a regra do quem dá mais, do leilão que faz com que aumente o turnover inverso. Com forte presença de multinacionais, sem dúvida, quem acaba tendo maior poder de barganha nesse negócio são elas, as grandes. Logo, nesse dominó que a falta de pessoal adequado traz ao setor, as primeiras a cair são as pequenas e médias empresas de TI nacionais, ameaçadas a desaparecerem ou servem absorvidas caso não haja um aumento de formados para o segmento.
O problema acarreta outras conseqüências como o corte de recursos para capacitação dentro das organizações. A incerteza da continuidade do funcionário dentro da companhia, devido ao grande assédio e às políticas de atração que fazem parte desse mercado, acabam por desmotivar muitas companhias a investir em treinamentos, valendo-se mais de boas ofertas salariais como chamariz de profissionais já prontos.
Quem ainda subsidia a educação dos funcionários tem de arcar com o risco e agregar benefícios extras que pesem na hora em que seus colaboradores se vêem tentados a se “aventurar em novos desafios”.
Com 2,5 mil cursos on-line na Universidade Datasul, desde 1999 a companhia investe na capacitação interna e afirma que sua estratégia de incentivar o conhecimento tem dado certo, suprindo a demanda e mantendo um time constantemente atualizado. “O risco de perda existe no nosso negócio e é alto. Procuramos dar as melhores condições de trabalho para o profissional e monitorar os indicadores de satisfação internos”, diz Giovanni Coradin, gerente de capital humano da Datasul.
“Dependendo do investimento e treinamento que ele fez, o funcionário se compromete a ficar na empresa por um período. Porém, o assédio é contido ao se proporcionar constantes opções de desenvolvimento, carreira e satisfação profissional”, complementa Luciana Farisco, gerente de talentos da IBM Brasil, que também mantém projetos e investe na capacitação em TI.
Sem desemprego?
Apesar da disparidade entre demanda e mão-de-obra, não são todos os profissionais da área que podem gozar da condição privilegiada de serem disputados a tapa pelos empregadores. Dois extremos em TI estão efervecidos: o trabalho mais técnico, na ponta, que exige menos da qualificação, e o profissional hot skill, com altíssimo nível de competências. Quem fica nesse meio de campo precisa rebolar para conseguir que as portas se abram no seu caminho.
Desempregado em março de 2005, Marcos Antonio Regis teve que fazer alguns sacrifícios e aceitar remunerações mais baixas para sair daquela situação. Um dos entraves nas entrevistas eram as certificações solicitadas, por sua vez um investimento muito caro para ser feito por quem não tem um emprego na mão. “Atualmente trabalho com ambiente web, Linux e com programação PHP, mas acho que cheguei a uma encruzilhada. Conseguir maiores salários nesse mercado e muito difícil.
As certificações que pretendo fazer para ter mais chances são caras e ainda não ganho pra isso. Ou seja, novamente será necessário muito sacrifício”.
Ainda sem um diploma de graduação, Paulo Gomes está há cerca de nove anos no mercado de TI, e deu sua cartada para conquistar um espaço, apostando na certificação. Segundo ele, a trilha da especialização nunca lhe apresentou dificuldades em conseguir emprego, ficando no máximo dois meses afastado.
“É um mercado de compra e venda, muito amplo e cheio de oportunidades, mas que a faculdade não forma com visão e conhecimento específico que ele pede. É preciso ter cabeça de empresário para gerenciar seu próprio trabalho”, afirma Gomes, defendendo o empenho profissional como a chave para o sucesso. “O aluno sai da faculdade genérico, pensando como funcionário. O que ele tem de entender é que é preciso correr atrás, se atualizar sempre e saber que talvez não trabalhe para uma empresa só”, conclui o jovem de 25 anos, que mantém dois empregos, trabalhando em uma consultoria pela manhã e na rede de uma universidade à tarde e à noite.
As parcerias entre universidades e empresas são um eficiente canal de entrada para quem investe na graduação, mas não há nenhuma garantia de estabilidade, sem que haja um esforço pessoal. “É importante que o profissional perceba que não existe mais aquela formação estaque. Ele precisa se atualizar. Quando falo em atualização não é necessariamente fazer outro curso, mas mesmo leituras e a própria internet, iniciativas que exigem sim um empenho pessoal continuo”, defende Fabiula Pimentel, diretora administrativa da Fiap.
As oportunidades estão com as portas abertas. O mercado corporativo bem que tenta fazer sua parte, mas esbarra na burocracia e falta de interesse do poder público pelo tema. O jeito, então, é levar os projetos para outros países que ofereçam mais benefícios e enxerguem na tecnologia da informação uma plataforma para o desenvolvimento futuro do país. Enquanto isso, Índia, China e Rússia – sim, o famoso BRIC do qual o Brasil faz parte – vai conquistando mais terreno e nos deixando, mais uma vez, para trás na história.